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Início Dicas de vestibular “Demais” ou “de mais”?

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“Demais” ou “de mais”? PDF  | Imprimir |  E-mail
Ninguém deixa de entender a mensagem quando a palavra e a locução se confundem, mas é bom notar a diferença entre elas

O articulista escreveu sobre o recurso às vezes excessivo usado por repórteres para ocultar suas fontes. Tanto as ocultam e protegem que às vezes ficam sem dar a notícia. Foi o caso com o general Stanley McChrystal, comandante das forças armadas dos EUA no Afeganistão e a revista Rolling Stone.

O repórter da revista, Michael Hastings, estava lá de passagem e não tinha compromissos com o general McChrystal, que costumava ser um tanto expansivo em suas críticas aos políticos. Os repórteres setoristas, no entanto, estavam acostumados com as inconfidências do general, ditas em “off”, e não as divulgavam, mas Hastings, infiltrado entre eles, as publicou. Como resultado, McChrystal perdeu o posto. “Off demais”, resumiu o analista em relação à acomodação dos outros repórteres, que selecionavam o assunto para não “prejudicar” ou “secar” a fonte.

O “off” usado pelo analista é uma forma reduzida da expressão inglesa “off-the-records”, adjetivo de dois gêneros e de dois números usado em jornalismo; significa informação confidencial, para não ser publicada.

Diferenças

Normalmente tais notícias são publicadas sem ser atribuídas a ninguém. Mas às vezes a fonte importante vale mais do que a notícia, como no caso do general. Porque se alguém da oposição, mesmo importante, fala mal do governo, não haverá grande novidade nisso.

Mas, se alguém importante da confiança do governo o critica, fica claro, como ficou, que haverá chuvas e trovoadas. Enfim, o resultado de cinzas no ventilador é aceito com mais naturalidade quando quem as jogou foi o adversário.

Tudo isso só para discutir a expressão “off demais”, do analista. Deveria ser “off” de mais, em duas sílabas, por que “off” aí foi substantivado, e o advérbio demais sente-se bem só ao lado de verbos, adjetivos e outros advérbios.

Claro que isso só teria importância numa prova criada por examinador levemente perturbado, que quisesse saber a diferença entre “demais” e “de mais”. Então, por curiosidade, convém examinar as diferenças.

O que importa para decidir o caso de usar a palavra ou a expressão não é como classificar uma ou outra, mas o significado apresentado por cada uma delas.

De modo geral, demais, numa só palavra, funciona como advérbio de intensidade. Acentua o valor de verbo, adjetivo ou advérbio e significa “muito”, “muitíssimo”, “extremamente”, “excessivamente”, “em demasia”.

“A seleção dungal jogou demais.”

“Perto demais do fogo, ele se queimou.”

“O Dunga foi bem demais.”

“A seleção dunguífera jogou mal demais.”

“Além disso”


“Demais também pode ser pronome indefinido, quase sempre precedido de artigo, com o significado de os outros, os restantes, os mais.

“Foram impedidos poucos fichas sujas; os demais se deram bem”.

Demais como adjetivo:

“Os demais candidatos recorreram ao STF e se deram bem.”

“Demais” equivalente ainda a “além disso”, “ademais”, “demais disso”, “de mais a mais” – em uso pouco frequente, há quem discorde, mas, nessa acepção, alguns sábios classificam demais como conjunção coordenativa que introduz uma oração explicativa, às vezes seguida de vírgula.

Curiosa e justificável essa oscilação, porque a classe adverbial é um tanto difusa, como lembra Celso Cunha em sua Gramática da Língua Portuguesa (Fename, 1982). Exemplos:

“Dunga disse que não queria mais ser técnico da seleção; demais não leva jeito mesmo.”

“Não disse nada a ela; demais não havia o que dizer.”

“ A mais”


“De mais”, preposição e advérbio, geralmente expressa a noção de quantidade, com significado aproximado de a mais, como oposto de de menos, mas também pode expressar anormalidade, estranheza. Tem função adjetiva; acompanha substantivos ou palavras substantivadas:

“A seleção perdeu gols de mais”

“Está tudo em cima; nem ossos de mais, nem carne de menos.”

“Não houve nada de mais com ela.”

“A imprensa usa ‘Off’ de mais.”

Num caso, entretanto, o encontro de “de” com “mais” não se confunde com “demais”. É aquele em que a preposição “de” aparece ao lado do pronome indefinido “mais”:

“A seleção precisa de mais jogadores de talento.”

“Ela faz questão de mais carinho.”

Classificações e definições pouco importam. O que importa é observar com atenção o sentido da frase para fazer a escolha apropriada.


Revista Língua Portuguesa

Edição: 59

Setembro de 2010

Página: 38
 
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